Senado aprova projeto para renegociação das dívidas do agro; veja as regras

    Apesar da resistência do governo, texto autoriza o uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal para financiar a renegociação de débitos rurais e agora retorna à Câmara

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    Foto: Carlos Moura/Agência Senado

    Foto: Carlos Moura/Agência Senado

    11deJunhode2026ás08:36

    O Senado aprovou na noite da quarta-feira (10) o Projeto de Lei (PL) 5.122/2023, que cria uma linha especial para renegociação de dívidas de produtores rurais afetados por eventos climáticos adversos ou por impactos econômicos decorrentes de conflitos geopolíticos internacionais.

    A proposta, conhecida como “Refis do Agro”, autoriza o uso de recursos do Fundo Social (FS) do Pré-Sal para financiar a medida.

    Como o texto foi alterado pelos senadores, a matéria precisará retornar à Câmara dos Deputados antes de seguir para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

    O parecer aprovado, relatado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL),  prevê condições especiais para produtores rurais e cooperativas que enfrentaram perdas provocadas por eventos climáticos extremos ou por impactos econômicos relacionados a conflitos internacionais.

    Entre os principais pontos estão juros reduzidos, prazos ampliados para pagamento e limites de financiamento de até R$ 10 milhões por beneficiário e R$ 50 milhões por cooperativa, associação ou condomínio.

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    O governo federal se posicionou contra a proposta. Segundo o Ministério da Fazenda, caso todos os potenciais beneficiários adiram ao refinanciamento, o custo para o Tesouro Nacional poderá chegar a R$ 140 bilhões ao longo dos próximos dez anos, aumentando a dívida pública.

    Renan Calheiros rebateu as críticas e afirmou que não haverá prejuízo aos recursos do Fundo Social destinados à saúde e à educação.

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    Quem poderá ser beneficiado

    O texto beneficia produtores rurais e cooperativas que comprovem perdas significativas em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025, causadas por eventos climáticos adversos ou pela queda dos preços agrícolas em decorrência de conflitos geopolíticos, como os registrados no Oriente Médio.

    Poderão ser renegociadas operações de crédito rural, empréstimos contratados para liquidar dívidas rurais e Cédulas de Produto Rural (CPRs), incluindo operações de custeio, investimento, comercialização e industrialização firmadas até 31 de dezembro de 2025. O projeto também contempla dívidas com cerealistas, cooperativas e fornecedores de insumos.

    Os débitos poderão ser recalculados sem incidência de multas, mora e outros encargos decorrentes da inadimplência.

    Condições da renegociação

    A linha especial de financiamento terá limite de até R$ 10 milhões para beneficiários de programas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp). Para cooperativas, associações e condomínios de produção, o teto será de R$ 50 milhões.

    As taxas efetivas de juros variam conforme o porte do produtor. Para beneficiários do Pronaf e demais pequenos produtores, a taxa será de 3,5% ao ano. Para médios produtores enquadrados no Pronamp, os juros serão de 5,5% ao ano. Já para os demais produtores, a taxa será de 7,5% ao ano.

    No texto final aprovado em plenário, o relator acolheu emendas para incluir operações renegociadas ou prorrogadas até 30 de abril de 2026, desde que estivessem adimplentes no momento da contratação.

    Também foi mantida a possibilidade de utilização do Fundo Social e de fundos supervisionados pelo Ministério da Fazenda sem a fixação de um limite financeiro específico. A autorização, no entanto, não obriga a utilização desses recursos.

    As condições da linha especial foram preservadas, com juros entre 3,5% e 7,5%, limite de até R$ 10 milhões por beneficiário e de até R$ 50 milhões para cooperativas e associações, além de prazo de pagamento de até dez anos, com três anos de carência, podendo chegar a 15 anos em situações excepcionais.

    Os recursos poderão ser operados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), além de outras instituições financeiras e cooperativas de crédito habilitadas.

    O projeto também prevê a suspensão das cobranças judiciais e administrativas relacionadas às dívidas abrangidas durante o período de contratação do financiamento.

    Além disso, o produtor poderá solicitar a revisão dos cálculos dos encargos sem sofrer restrições em cadastros de crédito enquanto o pedido estiver em análise.

    De onde virão os recursos

    Para viabilizar a linha especial de financiamento, o projeto autoriza o uso das receitas correntes do Fundo Social previstas para 2026 e 2027, além do superávit financeiro apurado até 31 de dezembro de 2025 e de 2026.

    Também poderão ser utilizados recursos do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR), de outros fundos supervisionados pelo Ministério da Fazenda e de fontes adicionais definidas pelo Poder Executivo.

    A proposta ainda prevê a utilização de recursos dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Nordeste (FNE), do Norte (FNO) e do Centro-Oeste (FCO), além do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé). O limite global das operações será definido pelo Executivo.

    Criado em 2010 para financiar políticas públicas permanentes com recursos do pré-sal, o Fundo Social teve suas atribuições ampliadas ao longo dos anos.

    Atualmente, 50% dos recursos do fundo são destinados à educação. A outra metade é dividida entre áreas como saúde, habitação social, ciência e tecnologia, cultura e esporte.

    Em 2025, uma medida provisória do governo federal, posteriormente convertida em lei pelo Congresso Nacional, incluiu o financiamento de políticas habitacionais e de mitigação das mudanças climáticas, além de destinar recursos para a reconstrução do Rio Grande do Sul após as enchentes registradas em maio de 2024.

    Após a implementação da medida, o Poder Executivo terá até 180 dias após o encerramento do prazo de contratação para encaminhar ao Congresso Nacional um relatório com os valores efetivamente contratados e as operações realizadas.

    Repercussão

    O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), afirmou que decidiu levar a proposta à votação em razão de um compromisso firmado com parlamentares.

    “Eu respeito integralmente a posição do governo, que têm apelado reiteradas vezes para que o Senado tenha cautela na deliberação das matérias relevantes e que podem impactar o orçamento do Brasil, mas eu fiz um acordo com os senadores e senadoras, com os deputados em várias ocasiões. Publicamente, eu vou informar que não há acordo com o governo em relação ao texto apresentado, mas eu vou deliberar hoje o relatório aprovado pela CAE”, disse.

    Renan Calheiros afirmou que permaneceram divergências entre governo e Congresso após semanas de negociação, incluindo reuniões realizadas nesta quarta-feira no gabinete da Presidência do Senado e com o ministro da Fazenda em exercício, Dario Durigan.

    "O ministro [foi] sempre muito cordato, receptivo, mas nós não tivemos com a área técnica do ministério a mesma facilidade que tivemos na discussão com o ministro Dario Durigan", disse Renan no plenário. "Em restando impasse, outra solução não há senão a que encaminhamos no nosso relatório, infelizmente."

    O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), afirmou que a bancada trabalhará para acelerar a tramitação da proposta na Câmara dos Deputados.

    “Tentamos fazer com que o governo entendesse a necessidade disso”.

    Lupion comemorou a aprovação no Senado e destacou o potencial da medida para reduzir o endividamento do setor.

    “Uma vitória extremamente importante da possibilidade de renegociar as dívidas dos produtores rurais. São 10 anos para pagar e mais três anos de carência. Os fundos também foram envolvidos. São R$ 170 bilhões para a gente resolver o problema do endividamento dos nossos produtores”, disse.

     

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