Após pedir apoio ao agro, Lula vai prestigiar evento do MST
Enquanto isso, MDA homologa 152 territórios rurais
Por |
Apesar da agenda positiva, movimento segue pressionando e ameaçando o governo. (Foto - Acervo/MST)
Na última semana, em meio à alta nos preços dos alimentos e ao aumento da insatisfação popular que fez sua aprovação cair, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou o diálogo com o setor produtivo.
O governo federal buscou apoio do agronegócio e pediu ajuda aos seus representantes nas discussões para conter a inflação.
Agora, Lula direciona sua atenção para outra frente. Após críticas severas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) à condução da reforma agrária, o presidente tenta reaproximação.
Na sexta-feira (7), ele fará sua primeira visita a um acampamento do MST desde o início de seu terceiro mandato. O evento ocorre no Acampamento Quilombo Campo Grande, em Campo do Meio, Minas Gerais, durante o Ato Nacional em Defesa da Reforma Agrária.
Além de Lula, estarão presentes ministros como Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário), parlamentares e apoiadores da reforma agrária.
A visita faz parte do programa Terra da Gente, que prevê a entrega de 12.297 lotes em 138 assentamentos, totalizando 385 mil hectares distribuídos em 24 estados.
Ver essa foto no Instagram
MST pressiona governo e cobra avanços
A relação entre Lula e o MST ficou estremecida nos últimos meses. Em dezembro, o líder do movimento, João Pedro Stedile, classificou como “vergonhosa” a condução da reforma agrária pelo governo federal.
Ele afirmou que o MST está cansado de promessas não cumpridas e criticou duramente a atuação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), chamando-os de “incompetentes”.
Agora, o MST espera que a visita de Lula resulte em avanços concretos. O movimento reivindica a criação de novas áreas para assentamentos, recursos para desenvolvimento agrícola e investimentos em educação no campo.
Um dos anúncios mais aguardados é o decreto de desapropriação da Usina Ariadnópolis, onde está localizado o Quilombo Campo Grande.

Segundo Tuíra Tule, da Direção Nacional do MST em Minas Gerais, a conquista representa um marco na luta pela terra no Brasil. “Plantamos nessa terra mais de 2,2 milhões de pés de café e mais de 160 tipos diferentes de alimentos. Já resistimos a 11 despejos. Esse ato reforça a importância de estarmos juntos na luta pela desapropriação dessa terra”, afirmou.
Além do Quilombo Campo Grande, outras seis áreas estão previstas para desapropriação, somando mais de 13 mil hectares nos estados de Minas Gerais, Pará, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul.
Movimento ameaça intensificar mobilizações
Apesar da agenda positiva, o MST segue pressionando o governo. Segundo o jornal O Globo, o movimento ameaça realizar um "Abril Vermelho" maior, com uma onda de ocupações de terras, caso suas demandas não sejam atendidas.
A ação, realizada anualmente, lembra o massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, quando 19 trabalhadores sem-terra foram mortos.
Além disso, parte do MST pede a saída de Paulo Teixeira do comando do MDA, argumentando que a pasta não prioriza a reforma agrária e que o ministro "não tem conhecimento do campo para traçar estratégias".
Apesar da pressão, Teixeira não parece ameaçado. “Depois de 10 anos, o Brasil retoma um robusto programa de reforma agrária para aumentar a produção de alimentos e reduzir a pobreza no campo”, afirmou o ministro.
Governo avança com política territorial
Enquanto Lula ensaia sua reaproximação com o MST, o Ministério do Desenvolvimento Agrário anunciou a homologação de 152 territórios rurais dentro da Política Territorial. A medida envolve 2.481 municípios, cobrindo 44,5% do território nacional.
O secretário de Governança Fundiária, Moisés Savian, destacou que a política busca maior integração entre ações governamentais para garantir acesso a oportunidades no campo.
“A organização territorial otimiza políticas públicas e melhora a qualidade de vida das famílias rurais”, afirmou.
Os novos territórios foram definidos após 24 seminários estaduais, que culminaram no Seminário Nacional de Política Territorial de 2024. Entre as iniciativas do programa estão o fortalecimento do Pronaf, a ampliação do Crédito Fundiário e projetos voltados à agricultura familiar.
Mais organização, mais investimentos
A reorganização territorial envolve sindicatos, cooperativas, associações e entidades de assistência técnica, totalizando mais de 4.500 organizações.
Segundo os assessores da Política de Territórios, Ademir Cazella e Gustavo Méyer, além das características geográficas, fatores culturais, sociais e econômicos são fundamentais para definir os territórios.
“O senso de identidade regional fortalece a implementação das políticas públicas e amplia seu alcance”, explicam.